sábado, 25 de julho de 2026
sexta-feira, 24 de julho de 2026
Prefácio
Há histórias que o tempo não consegue apagar.
O caso Araceli é uma delas.
Mais de meio século se passaram desde a morte de uma menina cuja história ultrapassou os limites de uma tragédia familiar e se transformou em um dos episódios mais controversos e dolorosos da história criminal brasileira. Com o passar dos anos, muitas versões foram apresentadas, diferentes interpretações foram construídas e inúmeras perguntas permaneceram no imaginário daqueles que, de alguma forma, acompanharam o caso. Foi como advogado e pesquisador que me aproximei dos autos.
Minha intenção, desde o início, não foi procurar culpados onde a Justiça já se pronunciou, nem substituir decisões judiciais por opiniões pessoais. O que me levou à pesquisa foi uma inquietação essencialmente jurídica e histórica: ler os documentos e compreender o que realmente foi investigado, o que foi demonstrado e, principalmente, o que permaneceu sem resposta.
Quanto mais se pesquisa um processo antigo, mais se percebe que os autos não são apenas um conjunto de papéis. Eles representam a memória oficial de uma investigação. São testemunhos de uma época, registram depoimentos, diligências, perícias, acusações, defesas e decisões. Mas também podem revelar contradições, lacunas e silêncios.
E foi justamente diante desses silêncios que nasceram as indagações.
Ao examinar os documentos relacionados ao caso Araceli, algumas questões despertam a atenção.
Informações que aparecem em determinadas fontes não são encontradas em outras. Depoimentos suscitam dúvidas. Circunstâncias relevantes parecem exigir uma análise mais aprofundada. Algumas versões não se encaixam perfeitamente. E certas perguntas, mesmo depois de tantos anos, continuam sem uma resposta documental que possa ser considerada definitiva.
É nesse ponto que começa este livro.
ARACELI: O SÍMBOLO DA JUSTIÇA SEM VENDAS, não pretende apresentar uma verdade absoluta sobre um caso que atravessou gerações. Pretende, antes, fazer algo que considero fundamental para qualquer pesquisa histórica e jurídica: perguntar.
Perguntar não significa acusar.
Questionar não significa condenar.
Reexaminar documentos não significa desconsiderar as decisões proferidas pela Justiça, mas analisar criticamente os elementos que integram a história do processo.
Ao contrário. O questionamento responsável é uma das ferramentas mais importantes da investigação. É por meio dele que se confrontam versões, se identificam contradições e se busca compreender aquilo que, por alguma razão, não ficou suficientemente esclarecido. Como ensinou Rui Barbosa: “A justiça atrasada não é justiça; senão injustiça qualificada e manifesta.”
Como advogado, aprendi que os documentos têm importância fundamental. Uma afirmação precisa ser confrontada com a prova. Um depoimento deve ser analisado dentro de seu contexto. Uma decisão judicial precisa ser compreendida a partir dos elementos disponíveis naquele momento. E uma lacuna documental não pode ser automaticamente transformada em uma certeza.
Por isso, este livro procura estabelecer uma linha entre o que está comprovado, o que é interpretação e aquilo que permanece como pergunta.
Não tenho a pretensão de oferecer respostas para tudo. Talvez algumas respostas estejam nos próprios autos. Talvez outras estejam em documentos que ainda não foram localizados ou suficientemente estudados. Talvez algumas perguntas jamais possam ser respondidas de forma definitiva, seja pela passagem do tempo, seja pela perda de documentos, seja pelas limitações próprias de uma investigação realizada há mais de cinquenta anos.
Mas isso não significa que as perguntas devam ser abandonadas.
A história de Araceli merece ser estudada com seriedade. Merece que seus documentos sejam preservados. Merece que seus autos sejam conhecidos. Merece que pesquisadores possam examiná-los sem prejulgamentos e que as novas gerações compreendam não apenas o que foi decidido, mas também o caminho que levou a essas decisões.
É, portanto, uma tentativa de retornar ao ponto de partida: os documentos. É uma investigação sobre o que foi registrado e sobre o que, aparentemente, não foi registrado. É, sobretudo, um conjunto de perguntas. Algumas talvez encontrem respostas nas páginas que seguem. Outras permanecerão abertas. E talvez seja justamente essa a maior contribuição que uma pesquisa histórica pode oferecer: não encerrar artificialmente uma questão, mas permitir que ela continue sendo examinada à luz dos documentos, da razão e do tempo.
Ao iniciar esta obra, não parto da certeza de que conheço todas as respostas. Parto da convicção de que algumas perguntas ainda precisam ser feitas. E é por isso que, depois de tantos anos, volto aos autos.
Estêvão Zizzi
Advogado e pesquisador




